quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

7ª dose - mais infância

Bilhete – Tarefa pra Passarinho: leva o Listrado com cuidado, o vô vai saber porquê (“é junto e com acento mesmo”)

Miguel não tem tarefa hoje. A mãe resolveu que ele ia ficar em casa, a semana toda, pra ela não se sentir sozinha. Admira a forma como o menino lida com as ausências. Agora ela vai ter que dar conta de tudo. Miguel se ofereceu pra ajudar, economizando o lanche da escola ele junta uns cinco reais por semana. “Juro que junto!”. A mãe olha o filho tentando animar o Listrado, que tá tão tristinho, observa ele juntar a bolinha com guizo, o pote de ração e uma camisa velha virada em cobertor pro bichinho, embrulhando tudo. Na coleira, Miguel amarrou seu boneco preferido, “agora a fila vai sempre ficar com um lugar vago,” no peito do boneco, um buraquinho.
...
- Cachorro vai pro céu?
- Acho que não meu filho.
- E passarinho, vai?
- Passarinho vai.
...
A mãe se divide entre juntar alguns objetos do vô e olhar o que o filho faz. Junta pouca coisa, um chapéu surrado, um pente de bolso, um pequeno baú enferrujando, tudo em cima da cadeira de balanço. A cada objeto uma pausa, os olhos naufragados. Com uma mão Miguel escreve algo num bilhete, com a outra esconde. O Listrado acompanha a mão do menino, a orelha em pé, os olhinhos brilhando, esperançoso, como se entendesse as palavras silenciosas de Miguel. A mãe não se mete em ler. O filho e o vô tinham seus segredos, sempre foi assim.
...
- Se o passarinho for grande, pode carregar o que quiser?
- Acho que sim.
- Acha ou tem certeza?
- Pode sim.
- Até o Listrado?
- Hum...acho que não.
...
- Que pena, o vô ia ficar tão feliz em ver o Listrado, né?

Vinicius da Cunha setembro/2009

Um comentário:

Nicoli disse...

Acho que ainda não tinha lido o texto pronto!!!
Ficou bem melhor amor!
Adorei!!!
Lembrei do Vô Tonico!

Beijosss