terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

11ª

Madrugada na cara, o sono foi embora. Já é amanhã a mais de uma hora e não me despeço do hoje-ontem. Isso é um luxo em dias tão ligeiros ou um engodo para o corpo, que cansa. O menino me segue pelos cômodos em fotografias sem assinatura. Eu sei de onde vem. Na parede a infância azul compete com o amarelo do tempo enternecendo o reboco, o concreto, a ferragem galvanizada. As memórias estão sempre à minha espera nas esquinas, que são outras. Outras, como minhas faces, que são a mesma por debaixo da calvície que vem, do grisalho nascente, da metamorfose que sou. Sigo então, com o aparente sem-assunto de costume, tão recorrente em mim que às vezes acredito ser o menino frente uma visão futura, sem compreender e sem se dar conta disso. Então o alívio não vem, nem eu o quero. Cultivo essa ausência de senso, como se fosse a dor de amor. E a infância, não é um amor que se foi?

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

10ª dose - quem sabe uma cor pra saudade... (Pro Tonicão, pra Nicoli, pro Alberto e pra Gisa - contadores, ouvintes e amantes das narrativas)

Quando nasceu Nicoli, já veio contrariando, não queria abrir os olhos. “Vai ver não tá pronta ainda!”, alertava o vô Tonico, “não se pode olhar assim pro mundo, de uma hora pra outra”. Mas o médico tinha feito as contas, oras bolas! Dia 22 de março e pronto, tava feito o alívio da mãe, que mal conseguia carregar a barriga. Depois de nascida, no dia 22 mesmo, todo mundo ficou meio assim, cumpé atrás. Só o vô é que tava tranqüilo. “Eu sei das coisas”, ele dizia enquanto apagava o palheiro na varanda da casa e a vó jogava fora mais uma embalagem de maço de vela, acendida pra Nossa Senhora. O médico, escondeu o suor da testa, disse pra família que era normal e se enfiou no consultório: “não deixa ninguém me atrapalhar”, falou pra secretária e sumiu por trás de um pilha de livros. O vô Tonico foi o último a ir no hospital visitar a primeira neta. Chegou sorrindo, como de costume. Olhou pra picorrucha, “embrulhada pra viagem”, e começou a fazer o que melhor sabia, contar histórias. Contou a primeira, e nada. Contou a segunda, e a mesma coisa. Começou a terceira e quando ameaçou parar a história, Nicoli piscou o olho esquerdo, o do contra. Vô Tonico contou o resto e quando chegou no fim a menina deu um sorrisinho de lado e abriu os dois olhões, azuis que nem os do avô, e fechou-os em seguida. “Essa é das minhas”. E foi assim por algumas horas. A menina conheceu primeiro o mundo que o vô apresentou a ela, “uns olhinhos tão jovens merecem um mundo mais leve”. Por isso, no começo vô Tonico não abusou das cores, contou um causo todo em azul, uma daquelas histórias de pescaria, a segunda coisa que ele sabia fazer melhor. Depois pegou uma história amarelinha que nem os girassóis do caminho que levava até a casa da sua primeira namorada, a vó da Nicoli. Só mais tarde, arriscou o vermelho, igual o do estofado do fusca que o vô prometeu levá-la pra passear. Dali pra frente, o vô foi misturando as cores e inventando coisas, e ele acreditava tanto no que contava que nem percebeu a menina arregalada pra ele sem nem piscar. Quando se deu conta já era dia 23 e a menina já via as cores que a vida esconde. Como bom contador de histórias, ele tinha uma de ninar e ela, mesmo sem vontade, teve que fechar os olhos pra dormir. Isso foi há muito tempo. Ninguém sabe, até hoje, se foi descuido, acaso ou destino, mas até os dezesseis anos de Nicoli, a família comemorava seu aniversário no dia 23, o dia em que o vô a ensinou a escolher as cores pro mundo. Mas isso não vem ao caso. Hoje, quando ela conta histórias para seus alunos, fecha os olhos segundos antes de começar, e vê a primeira coisa que viu quando abriu os olhos pela primeira vez: o sorriso do avô, depois de ter dito que ela “era das dele”. Ele tinha razão.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

9ª dose

Resposta nenhuma. Felipe sente a mãe saindo, cléc, tummm. Sozinho de novo, no escuro do quarto. O único sinal de luz deve ser aquele debaixo da porta, vindo do quarto dos pais. Veja bem, deve ser é uma suposição, porque ele não arrisca abrir os olhos. Sozinho, sempre pensa coisas pra espantar o medo.
Não entende o que se passa com os adultos, “a vida deles era pra ser mais fácil, gente grande pode o que quiser! Criança é que vive difícil, não pode nada, adulto diz não pra tudo”. Fica pensando na cozinha da sua casa quando crescer. “Vai ter uma só com leite condensado, um monte de latinhas abertas cada uma com uma colher. Outra coisa que quer é um armário só com camisas pra sujar de suco e na toalha da mesa estará escrito: “Por favor, derrame seu suco aqui”. Na casa do Felipe quase sempre ele ou a irmã derramam alguma coisa na mesa e a mãe emenda um “qual é o dia? Qual é o dia que vocês não derramam nada?”. O que ele não entende é que quando algum adulto derrama, ninguém abre o bico. Só fica a vontade de dizer passando da cabeça pra garganta, da garganta pros olhos, dos olhos dele pros da irmã, dos da irmã pros dele, e dos dois pares de olhos pros pratos, com um sorrisinho no canto da boca.
O que não tem cabimento mesmo, mesmo para a criança mais paciente do mundo, é quando os pais deixam os filhos brincarem na rua e na hora de voltar pra casa ficam chiando por conta dos pés sujos. “Menino, por onde você andou que tá com os pés encardidos? Parece que você procura lama pra pisar de propósito!”
Mas hoje ele cismou com outra coisa. “Mãe, por que eu e a mana, que somos pequenos temos que dormir sozinhos e de luz apagada? E você e o pai que são grandes dormem juntos e com a luz acesa?”. Ela riu, e até que procurou uma resposta. Felipe sempre a deixa assim, sem saber o que dizer. Ele por sua vez pensou “vai saber! Adulto complica tudo mesmo.” Pensou de novo, “no fundo eu até que sou corajoso”. E dormiu.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

8ª dose - "o mar tem rosto?"

O menino foi catando coisas pelo caminho. Um toco de pau ali, umas pedras acolá, um pedaço de cano que encontrou num terreno de uma casa em construção. A menina, não. Comportada, segurava a mão do homem com a leveza das mãos das crianças. Ela cuidava onde pisava para não sujar os sapatos nem a calça. O menino só queria desbravar, as mãos já manchadas de barro. O homem, silêncio, coração apertado, angústia, solidão, pensando coisas que cabem aos adultos. Chegaram os três à praia, que estava lá só pra eles.
O homem sentou na areia úmida, marcada pela maré alta. A menina sentou ao seu lado, pegou uma vareta cansada de navegar e virou ela numa caneta ou lápis, quietinha se pôs a desenhar, escrever seu pensamento leve e solto. O menino, bem... o menino se espalhou pela praia perseguindo caranguejos, deixando rastros atrás de si, usufruindo a sua liberdade. Ambos, sendo, apenas sendo...ah...crianças. Já o homem: refletia, queria entender, então olhava o mar e depois do mar, até onde os olhos chegavam e um pouco mais além e não via. Mas a menina viu e perguntou se o mar tinha rosto. Respiração...e o homem respondeu perguntando o que ela achava. Achava que sim. Então tinha, oras! Ela sorriu.
Mais perto da água, dum morrinho de areia que a maré fez a noite toda o menino fez um mirante e de lá das alturas imensas controlava o mar com outra vareta navegada que ele fez batuta, regeu o mar, o tamanho das ondas...agora uma média, uma grande, uma onda forte! Ele olhava para o homem compartilhando seus poderes. A menina perguntou se tubarão era peixe. E baleia? O homem explicou. Ela também queria descobrir coisas. E o mar estava lá, pra eles. De repente o homem viu. Viu o mar olhando ele. Pegou a mão da menina, assoviou para o menino. Ficaram os desenhos, a caneta, a batuta, o mirante, as coisas de adultos. Ficou também o mar, olhando o três indo embora.

Escrito em julho/2009

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

7ª dose - mais infância

Bilhete – Tarefa pra Passarinho: leva o Listrado com cuidado, o vô vai saber porquê (“é junto e com acento mesmo”)

Miguel não tem tarefa hoje. A mãe resolveu que ele ia ficar em casa, a semana toda, pra ela não se sentir sozinha. Admira a forma como o menino lida com as ausências. Agora ela vai ter que dar conta de tudo. Miguel se ofereceu pra ajudar, economizando o lanche da escola ele junta uns cinco reais por semana. “Juro que junto!”. A mãe olha o filho tentando animar o Listrado, que tá tão tristinho, observa ele juntar a bolinha com guizo, o pote de ração e uma camisa velha virada em cobertor pro bichinho, embrulhando tudo. Na coleira, Miguel amarrou seu boneco preferido, “agora a fila vai sempre ficar com um lugar vago,” no peito do boneco, um buraquinho.
...
- Cachorro vai pro céu?
- Acho que não meu filho.
- E passarinho, vai?
- Passarinho vai.
...
A mãe se divide entre juntar alguns objetos do vô e olhar o que o filho faz. Junta pouca coisa, um chapéu surrado, um pente de bolso, um pequeno baú enferrujando, tudo em cima da cadeira de balanço. A cada objeto uma pausa, os olhos naufragados. Com uma mão Miguel escreve algo num bilhete, com a outra esconde. O Listrado acompanha a mão do menino, a orelha em pé, os olhinhos brilhando, esperançoso, como se entendesse as palavras silenciosas de Miguel. A mãe não se mete em ler. O filho e o vô tinham seus segredos, sempre foi assim.
...
- Se o passarinho for grande, pode carregar o que quiser?
- Acho que sim.
- Acha ou tem certeza?
- Pode sim.
- Até o Listrado?
- Hum...acho que não.
...
- Que pena, o vô ia ficar tão feliz em ver o Listrado, né?

Vinicius da Cunha setembro/2009

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

6ª dose - uma boa leitura

O Maikon K. havia me falado de Fernando Bonassi na turnê do Malasartes. O nome do autor havia ficado na cabeça e, na semana passada, me chamou a atenção na vitrine do Sebo. "Prova Contrária" é o nome do livro. Muito interessante a forma como escreve, a narrativa é rápida, sem delongas e cheia de imagens. A história vai se revelando aos poucos. E não sei o porquê, mas dá uma sensação de que a medida que eu leio é como se estivesse escrevendo o livro também ou pelo menos dá vontade de ter escrito, sei lá. Levo adiante a dica do MK.

Segue a apresentação do livro:

"Se não fosse atestada tua morte, eu jamais compraria esta casa."

Um apartamento vazio, uma mulher e o seu passado. Fragmentos que se juntam, espaços que traduzem uma ironia do destino. O sonho da casa própria se realiza diante do fim de um pesadelo. Depois de incessantes buscas, aquela mulher teve paz. Seu marido - um desaparecido político - fora finalmente considerado morto pelo governo brasileiro. A história tinha chegado ao fim. Será?

Em "Prova Contrária", novo livro de Fernando Bonassi, o leitor vai ser convidado a participar de um curioso jogo cênico. É a mulher que conversa com o homem, é ele que dá sua versão para os fatos, é o passado que se mistura com o presente. É um rico exercício de possibilidades que surpreende o leitor ao abordar - de forma original - fragilidades, medos e suscetibilidades.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

5ª dose - do ser criança

Os alunos

"Dia após dia nega-se às crianças o direito de ser crianças. Os fatos, que zombam desse direito, ostentam seus ensinamentos na vida cotidiana. O mundo trata os meninos ricos como se fossem dinheiro, para que se acostumem a atuar como o dinheiro atua. O mundo trata os meninos pobres como se fossem lixo, para que se transformem em lixo. E os do meio, os que não são ricos nem pobres, conserva-os atados à mesa do televisor, para que aceitem desde cedo, como destino, a vida prisioneira. Muita magia e muita sorte têm as crianças que conseguem ser crianças." (De pernas pro ar, a escola do mundo ao avesso - Eduardo Galeano)

Querendo ou não a gente se compara com os outros, com os mais velhos e também com os mais novos e as diferenças são nítidas nas atitudes, nos hábitos, na forma de pensar e ler o mundo, na forma de ser. Não é difícil perceber as crianças perdendo a infância, é só tirarmos um pouco os olhos da tv, ou de repente, olharmos ela para além dela, ou quem sabe prestarmos atenção nas escolas, na família do vizinho. Grande parte das crianças perde a infância muito cedo. Cada vez mais elas parecem ser mini-adultos, e isso dá um medo! Não é incomum aquela fala do pai preocupado: "não quero que meu filho fique pra trás", daí o filho é inserido a seco na competitividade do mundo capitalista/consumista/e o caralho a quatro tendo que dar conta de várias competências e habilidades e fica pra trás quase todo o prazer da infância. Ou algo como "Meu filho é foda no cumputador, fala inglês, parece gente grande, já sabe o que quer desde pequeno, exige do bom e do melhor, não quer qualquer marca de tênis e tem o vídeo-game de última geração." Fala-se nos meninos-prodígio, numa nova geração de crianças com racicínio mais rápido que o das gerações anteriores e coisa e tal. "É a evolução minha gente!" Fico me perguntando pra onde vai essa infância perdida. A sociedade adoece de tantos males, não ter infância deve contribuir para alguns desses. Mas enfim, não quero chover no molhado, acho que o texto do Galeano já nos instiga o suficiente a pensar sobre. "De pernas pro ar", eu encontrei na vitrine do sebo. Não é novidade dizer que o Galeano é fantástico, mas também não custa repetir...



Da janela do carro vejo uma infância rebolando no céu, tremulando a rabiola. O vento pede licença, a pipa faz que não. O vento insiste, sopra forte. A pipa busca prum lado e pro outro. O vento tinha avisado

Pic

Agora, o menino tá solto por aí.


(Vinicius da Cunha - setembro/2009)