terça-feira, 26 de janeiro de 2010

10ª dose - quem sabe uma cor pra saudade... (Pro Tonicão, pra Nicoli, pro Alberto e pra Gisa - contadores, ouvintes e amantes das narrativas)

Quando nasceu Nicoli, já veio contrariando, não queria abrir os olhos. “Vai ver não tá pronta ainda!”, alertava o vô Tonico, “não se pode olhar assim pro mundo, de uma hora pra outra”. Mas o médico tinha feito as contas, oras bolas! Dia 22 de março e pronto, tava feito o alívio da mãe, que mal conseguia carregar a barriga. Depois de nascida, no dia 22 mesmo, todo mundo ficou meio assim, cumpé atrás. Só o vô é que tava tranqüilo. “Eu sei das coisas”, ele dizia enquanto apagava o palheiro na varanda da casa e a vó jogava fora mais uma embalagem de maço de vela, acendida pra Nossa Senhora. O médico, escondeu o suor da testa, disse pra família que era normal e se enfiou no consultório: “não deixa ninguém me atrapalhar”, falou pra secretária e sumiu por trás de um pilha de livros. O vô Tonico foi o último a ir no hospital visitar a primeira neta. Chegou sorrindo, como de costume. Olhou pra picorrucha, “embrulhada pra viagem”, e começou a fazer o que melhor sabia, contar histórias. Contou a primeira, e nada. Contou a segunda, e a mesma coisa. Começou a terceira e quando ameaçou parar a história, Nicoli piscou o olho esquerdo, o do contra. Vô Tonico contou o resto e quando chegou no fim a menina deu um sorrisinho de lado e abriu os dois olhões, azuis que nem os do avô, e fechou-os em seguida. “Essa é das minhas”. E foi assim por algumas horas. A menina conheceu primeiro o mundo que o vô apresentou a ela, “uns olhinhos tão jovens merecem um mundo mais leve”. Por isso, no começo vô Tonico não abusou das cores, contou um causo todo em azul, uma daquelas histórias de pescaria, a segunda coisa que ele sabia fazer melhor. Depois pegou uma história amarelinha que nem os girassóis do caminho que levava até a casa da sua primeira namorada, a vó da Nicoli. Só mais tarde, arriscou o vermelho, igual o do estofado do fusca que o vô prometeu levá-la pra passear. Dali pra frente, o vô foi misturando as cores e inventando coisas, e ele acreditava tanto no que contava que nem percebeu a menina arregalada pra ele sem nem piscar. Quando se deu conta já era dia 23 e a menina já via as cores que a vida esconde. Como bom contador de histórias, ele tinha uma de ninar e ela, mesmo sem vontade, teve que fechar os olhos pra dormir. Isso foi há muito tempo. Ninguém sabe, até hoje, se foi descuido, acaso ou destino, mas até os dezesseis anos de Nicoli, a família comemorava seu aniversário no dia 23, o dia em que o vô a ensinou a escolher as cores pro mundo. Mas isso não vem ao caso. Hoje, quando ela conta histórias para seus alunos, fecha os olhos segundos antes de começar, e vê a primeira coisa que viu quando abriu os olhos pela primeira vez: o sorriso do avô, depois de ter dito que ela “era das dele”. Ele tinha razão.

2 comentários:

Nicoli disse...

Ei amor, acho que hoje, em meu nome e com certeza do Vô Tonico, posso dizer que vc também é um dos nossos!!!
Oh Contador de histórias!!!
Lindo!
Te amo

o Cheff disse...

Sabe uma música do Milton, que diz:
"certas canções que ouço, cabem tão dentro de mim, que perguntar carece: como não fui eu que fiz?"
Coisa bonita de se ler meu amigo.
Meu bom amigo.
Um forte abraço.